por Telma Moura.

domingo, 7 de maio de 2017

A FLÂNERIE POLONESA

O blog passará a ser utilizado como forma de apresentar a poesia que circula por aí, ou que não circula. A ideia é fazer um diálogo entre poetas e suas poesias, bem como o conhecimento de suas obras, a forma como cada um talha na palavra a sua obra. 

Timidamente quero começar a pensar de que forma a poética de Wislawa Szymborska (1923- 2012) encontra um ponto de contato na poesia de Czeslaw Milosz (1911-2004), dois poetas poloneses. 


| DESCRIÇÃO DE SI MESMO JUNTO A UM COPO DE WHISKY NO AEROPORTO, DIGAMOS EM MINNEAPOLIS | 

Meus ouvidos ouvem cada vez menos das conversas, meus olhos vão ficando mais fracos, mas não se fartaram.
Vejo suas pernas em minissaias, em calças compridas ou tecidos voláteis,
Observo uma a uma, suas bundas e coxas, pensativo, acalentado por sonhos pornô.
Velho depravado, é a cova que te espera, não os jogos e folguedos da juventude.
Não é verdade, faço apenas o que sempre fiz, compondo cenas dessa terra sob as ordens de uma imaginação erótica.
Não desejo a estas criaturas, desejo tudo, e elas são como o signo de uma convivência extática.
Não é minha culpa se somos feitos assim, metade contemplação desinteressada, e metade apetite.
Se após a morte eu chegar ao Céu, lá deve ser como aqui, só que me terei desfeito da obtusidade dos sentidos e do peso dos ossos.
Tornado puro olhar, sorverei ainda as proporções do corpo humano, a cor da íris, uma rua de Paris em junho de manhãzinha, toda a incompreensível, a incompreensível multidão das coisas visíveis.

- Czeslaw Milosz



| O TERRORISTA, ELE OBSERVA |

A bomba explodirá no bar às treze e vinte.
Agora são apenas treze e dezesseis.
Alguns terão ainda tempo para entrar;
alguns, para sair.

O terrorista já está do outro lado da rua.
A distância o protege de qualquer perigo.
E, bom, é como assistir a um filme.

Uma mulher de casaco amarelo, ela entra.
Um homem de óculos escuros, ele sai.
Jovens de jeans, eles conversam
Treze e dezessete e quatro segundos.
Aquele mais baixo, ele se salvou, sai de lambreta.
E aquele mais alto, ele entra.

Treze e dezessete e quarenta segundos.
A moça ali, ela tem uma fita verde no cabelo.
Mas o ônibus a encobre de repente.

Treze e dezoito.
A moça sumiu.
Era tola o bastante para entrar, ou não?
Saberemos quando retirarem os corpos.

Treze e dezenove.
Ninguém mais parece entrar.
Um careca obeso, no entanto, está saindo.
Procura algo nos bolsos e
às treze e dezenove e cinqüenta segundos
ele volta para pegar suas malditas luvas.
  
São treze e vinte.
O tempo, como se arrasta.
É agora.
Ainda não.
Sim, agora.
A bomba, ela explode.

Wislawa Szymborska



Assim como no poema de Szymborska, o observador no poema de Milosz encara tudo a seu redor como uma bomba de sentidos prestes a explodir: as conversas no aeroporto, as pernas em minissaias, os jogos e folgueios da juventude. A imaginação cria cenas e cenários eróticos, e o desejo não é exatamente por aquelas criaturas, mas pela explosão de significações que elas podem produzir sob o copo de Whisky naquele aeroporto. Tudo é signo de uma convivência extática, porém, ao fixar o olhar as multidões se tornam incompreensíveis. Em Szymborska é como se assistíssemos a um filme de ação. A cada linha do poema o olhar atento de quem observa a cena nos impele compulsoriamente a um estado de tensão. A contagem está implícita e explícita, são 3s de um vai e vem angustiante. As pessoas entram e saem daquele lugar como se estivessem em um campo minado invisível. É como se inseríssemos uma moeda em uma máquina caça-níquel e ficássemos observando as figuras a girar e aparecer na tela: 
a mulher de casaco amarelo, o homem de óculos, o jóvem de jeans ... É como esperar que a figura certa apareça e a máquina nos bombardeie em som e imagem com o dizer "megawin". 



Por Telma Moura.





Referências

http://www.algumapoesia.com.br/poesia2/poesianet112.htm

http://www.algumapoesia.com.br/poesia3/poesianet265.htm




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